A mim, guelra de peixe.
E doce nela – toda.
E que me servem antes!
(ou bem sirvam, que seja;
me importa a analogia!)
Por isso, imperativo
afirmo: servem antes,
antes que um catavento
se espiralize todo
pela ação de um pinote
dado em suas pás brancas,
que sopram, melancólicas,
só alpiste e fritura.
Maio 20, 2008
Março 5, 2008
Di.
Duas letras.
Um pintor, um artista.
Consoante roçando a barriga
na agudeza do I,
feminino, gritante,
reticiente…
belo.
Di.
Um símbolo.
Um filho.
Conjunção incorreta
da Semana de Arte Moderna
(e que ficou
linda,
ficou
certa).
Di.
Uma
Revolução.
Um traço.
Aliás,
três
(repare só).
Risco
de
Modernidade
na cultura
brasileira – parnaso, careta!
Di.
Um grito,
um choro
um riso.
Filme
de Glauber Rocha.
Cuspe
de
Modernismo
nas telas
poli
artísticas
(e o que importa
se tem ou não
hífen?…
Di não
ligaria…
Veria crítica,
veria ênfase,
veria arte…
Faria um quadro).
Di.
Um suspiro.
Um poeta.
Concretista sem letras;
só
imagens:
retratos
do povo
que alucinaram
sua vista.
Di.
Um caboclo.
Um crioulo.
Mameluco, branquelo,
índio.
Amarelo
até.
Di.
Di-funto,
morto
glorioso.
Bebido,
celebrado
(a contragosto
da família…
e gostíssimo seu).
Velório-arte: filme!
Poesia em tela,
poesia em som.
Imagem
em
movimento
da obra
a contemplar.
Um berro.
Um soco
de lirismo
nos
negativos
Di-spotos à
luz,
versi-
ficando,
pintando,
de-
clamando
arte em tela.
Di.
Cercado
de caboclas,
pintando
um Noé
negro
no céu
do Catete.
Di.
Cavalcante.
Di.
Março 4, 2008
Fevereiro 21, 2008
guaiamum que tomou ácido
dançou, guaiamum dançou,
acidulou, tomou dança
e a si dançou, guaiamum
foi do mangue pra cidade
com uma flor pro seu amor
que azulou, que acidulou,
que era a flor de guaiamum,
carapaça azul no céu
flor de manga que azedou,
dancidulou guaiamum
ácida flor, flor do mangue
que mangou de guaiamum
que azulou, que acidunçou,
tomou ácido e viu flor
na flor de manga do amor
de seu amor que adotou,
acarinhou e adoçou,
guaiamum, ó, guaiamum
dançou de lado, laterando
pra cidade de uma flor
que era manga, que era amor
de guaiamum, que acidou
azulou, acidulou
em céu de manga num céu
de flor, adoçante, flor
dançante que adoçou manga
ácida no céu de mangue
do amor ácido que é flor
de guaimum, flor azul
que acidulou, azedou,
citadinizou a flor
sedada em doce de flor
desmangada da cidade
que foi ácido na flor
do pensamento que dança
azulado em guaiamum
que tomou ácido, flor,
manga, céu, cidade e dança
pegou pena e escreveu
esses versos guaiamados
com amor pro seu amor,
guaiamum, ó, guaiamum.
Fevereiro 13, 2008
No início uma faísca, centelha inocente,
criancinha fogueta riscando a infância
com a fagulha de luz de um riso pueril.
Depois, um sopro ígneo, chama vivaz, tensa,
a consumir o quê de vida, o quê de brilho,
essência, energia ardente em olhos rubros
e sonhadores, fogo dançando o balé
das serpentes, os tangos e sambas da roda
viva da imprevisível sorte. Então, mais tarde,
apaga-se, a visão escurece, escurece,
e resta pouco, pouco, um cintilar bem fraco
aponta pra um passado luminoso, o dia
anoitece, o sol cede à lua em véu de nuvens
negras, intensas, noite, noite, sono eterno,
agora resta pouco, pouco, muito pouco,
definha-se qual velho, curva-se qual foice,
chega ao fim, morte, breu, fumaça d’alma – fósforo.
Janeiro 30, 2008
Tomando o mesmo texto como matéria-prima (vide post anterior)…
Eis o novo garimpo:
Finas letras
Quando me lembro…
Um senhor dia para a literatura
da nova geração.
Lentamente deixou escorregar.
Art noveau parecia iluminar
alguma parte do edifício.
Casas
abertas à nossa frente suficientemente
para o suficientemente.
“Toda e qualquer exemplo é antropologia barata”,
pensou – consciente de que.
Janeiro 24, 2008
Para ser mais claro, posto um dos três poemas criados a partir deste jogo lúdico maravilhoso.
Segue, abaixo, uma página aleatória do Jogo da amarelinha, de Julio Cortázar.
Tema fascinante
que descobrira por Ronald somar
ao sussurro o café de madrugada.
Cabeça sobre jornais
que devia ser mais subjetiva
do que grandes esferas violetas.
Era evidente
um telefone tocar
àquela hora extraordinária.
Ninguém telefonaria por outra razão:
robe de chambre,
expressão glacial,
confuso,
inteirando-se
de que o idiota estava em Paris.
Trago notícias de todo mundo.
Tempo para fazer
tudo na cabeça,
todo o futuro,
todíssimo
(três
metros
em redor
ouvindo músicas primitivas
de algo como um frio no estômago).
Janeiro 16, 2008
Uma piscina redonda, funda, côncava.
Água alva, branca, branca como o branco
dos olhos. Bóias coloridas boiando,
boiando sobre o líquido tão albino
– garantia de salvamento. Luquinha
mergulha. E mergulha sua colherinha
na tigela de leite com cereal
de frutas. Café-da-manhã no primeiro
dia do menino no jardim de infância.
Janeiro 9, 2008
Janeiro 6, 2008
O Pato Donald, aquele
da roupa e chapéu azul,
foi com os três sobrinhos dele,
Huguinho, Zezinho,
Luisinho, numa ilha
lááá longe. Aí ele tinha
que conseguir uma lágrima
do crocodilo que o Tio
Patinhas tinha pedido
para ele pegar. Aí ele
não sabia o que fazer.
Aí ele pensou muuuitoo…
Pensou assim um montããoo!!
Aí, de tanto pensar
teve uma idéia excelente:
jogar um tantão assim
de pimenta no focinho
do crocodilão. Aí
ele esperou que o bichão
dormisse e foi lá jogar
a pimenta no focinho
dele. Aí o crocodilo
fez aaa… fez aaa… e espirrou
longe pra caramba. Aí
o espirro foi espirrado
com tanta força que, plingt!,
pulou uma gota d’água
do olho do crocodilão.
Era a lágrima! Aí todos
ficaram muito felizes
e voltaram pra levar
a tal lágrima pro Tio
Patinhas. E acabou! Fim.

